PADRE ALVES BRÁS

Homilia de D. Manuel Felício na Peregrinação da Família Blasiana à Guarda

Data

Estamos no coração da Quaresma, que, como sabemos, ocupa os seus 3 domingos centrais, com as respetivas semanas, dos quais este IV Domingo é o segundo. Com a mensagem que estas três semanas nos transmitem, somos convidados a rever a nossa identidade de discípulos de Cristo e os nossos compromissos batismais, para podermos renovar as promessas do batismo, com verdade, na próxima Vigília Pascal.

Para isso contamos com a ajuda das três catequeses que, este ano obriga­toriamente escutamos, uma em cada um destes três domingos, as quais nos convidam a fazer esta revisão. Hoje, a catequese é o episódio da cura do cego de nascença.

Também celebramos o domingo tradicionalmente chamado da alegria ou “Domingo Laetare”, para utilizarmos a consagrada expressão latina.

E este é domingo da alegria, porque já vemos no horizonte próximo, o anúncio da Ressurreição de Cristo, fonte da esperança para a vida nova que todos desejamos e para a qual nos encaminhamos.

Hoje iniciámos também aqui uma importante peregrinação, que pretende envol­ver não só a Família Blasiana, com o Instituto Secular das Cooperadoras da Família, a Obra de Santa Zita ou OPFC e o Movimento Juvenil “Focos de Esperança”, mas também todos os que desejam contribuir para que a força do carisma devido a Mons. Alves Brás tenha os efeitos devidos na vida das famílias e da sociedade.

Iniciámos hoje uma peregrinação que é peregrinação interior e distribuída no tempo, pois não tem como meta um santuário determinado, mas sim o carisma que Mons. Brás soube discernir bem e aplicar de forma eficaz, nas circunstâncias do seu tempo; e hoje continua com plena atualidade.

De facto, nas visitas que ele diariamente fazia ao Hospital, percorrendo as ruas bastante ingremes que o traziam do Seminário Maior da Guarda, onde lhe estava confiado o serviço de direção espiritual dos futuros sacerdotes, foi-se apercebendo das situações dramáticas e mesmo miseráveis das então chamadas criadas de servir. Passou a dar-lhes atenção e a reunir com elas, destacando-se o grupo das mais sensibilizadas para o problema, que começaram a reunir na casa da Zezinha e depois em outra casa que reunia mais condições, nas proximidades da Igreja de S. Vicente, lugares que hoje visitámos e que realmente estão na origem da Obra de Santa Zita e também das outras vertentes do mesmo carisma discernido por Mons. Brás.

E, desta forma, ele ia-se apercebendo de que, como acontece com todos os problemas, para lhes dar a devida solução, é preciso procurar a sua raiz. E essa raiz era, como hoje contínua a ser, o mundo das famílias, quer as famílias que ofereciam trabalho às empregadas quer as suas famílias de origem.

Mas, fixando-se no imediato, Mons. Brás começou por lhes oferecer programas de atendimento e acompanhamento, com palestras, celebrações, retiros e serviço de confissão, a partir da Igreja de S. Vicente.  E fazia-o a horas compatíveis com o trabalho das destinatárias, que tinham a obrigação de começar a servir os seus patrões, muito cedo. E, por isso, ainda mais cedo, Mons. Brás aparecia na Igreja de S. Vicente para dar cumprimento ao programa. Por isso, apesar das suas bem conhecidas limitações de saúde, percorria as mesmas ruas por onde nós hoje também peregrinámos, para, às 6 horas da manhã, estar na Igreja de S. Vicente. E nos invernos rigorosos de então, muito mais do que o são hoje, mesmo com as ruas cheias de neve, que perdurava semanas ele não dava parte de fraco.

No meio de todo este trabalho que o ocupava diariamente, foi deixando crescer em si mesmo a ideia de dar a devida atenção às famílias. E apareceu o Instituto das Cooperadoras da família. Mas também se foi apercebendo de que o cuidado dos jovens era prioritário, como hoje o continua a ser para nós. E ia-se, assim, abrindo a porta para os Focos da Esperança.

Por sua vez, o Movimento por um Lar Cristão aí está, também para interpretar o mesmo carisma de forma adaptada aos tempos de hoje, com a preocupação de fazer o devido acompanhamento às famílias e aos jovens, realidades sempre indissociáveis.

Agora, damos graças a Deus e pedimos-lhe que a todos nos ajude a aproveitar esta peregrinação de dois anos para tentarmos responder aos problemas reais das nossas famílias e dos nossos jovens.

Hoje, ao fazer a oração da manhã, na mesma capela onde, em 1925, Mons. Brás foi ordenado sacerdote pelo então Bispo da Guarda D. José Alves Matoso, fiz uma prece especial ao Senhor para que nos dê a graça de vermos reconhecida pela Igreja a sua santidade, nos processos de beatificação e canonização; e sobretudo para que o seu exemplo de sacerdote nos inspire também a nós sacerdotes as melhores formas de superarmos as dificuldades  que, na hora atual, nos estão a ser criadas e, com a ajuda de Deus, seguirmos em frente, de cabeça levantada, continuando a prestar à Igreja e à Sociedade  os serviços de incontestável valor e mesmo insubstituíveis que nos continuam a ser pedidos.

Com esta peregrinação, iniciada no berço do carisma de que foi portador Mons. Brás, ficaremos, com certeza, mais capazes de, no ano de 2025, celebrarmos o centenário da sua Ordenação Sacerdotal, no contexto do Jubileu da Redenção, que toda a Igreja se prepara para celebrar, nesse mesmo ano.

A Palavra de Deus hoje convida-nos a passar das trevas para a luz. Sabemos que Essa luz tem um nome. É Jesus Cristo, que encontrou no seu caminho aquele cego de nascença. Deu-lhe primeiro capacidade de ver e depois ofereceu-se-lhe, como sendo aquela luz que ele há muito procurava.

E nessa mesma luz ele fez a sua profissão de Fé, prostrando-se-lhe aos pés e dizendo– eu creio, Senhor. Jesus Cristo é, de facto, quem nos faz ver para além das aparências, como aconteceu com o Profeta Samuel.

Que esta Quaresma nos ajude a deixar que a Luz de Cristo nos ilumine e fortaleça a nossa capacidade de ver, para vermos bem, com os olhos de Deus, a nossa vida e a vida do mundo.

Sé da Guarda, 19 de março de 2023

+Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda